A leishmaniose visceral (LV) é uma zoonose causada pelo protozoário Leishmania e
transmitida pelo mosquito-palha (Lutzomyia). No Pará, região amazônica brasileira, a doença
apresenta elevada relevância para a saúde pública devido ao número acentuado de casos e à
ampla disseminação vetorial em áreas rurais e urbanizadas. O estado paraense concentra uma
das maiores demandas de LV no Brasil, sobretudo em municípios com baixas condições
socioeconômicas, o que favorece a difusão da doença. Observa-se também um aumento
expressivo de casos de LV em coinfecção com o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV). A
interação patogênica entre ambas as infecções é altamente prejudicial, pois intensifica a
linfopenia, afetando principalmente linfócitos T-CD4+, o que compromete as defesas
imunológicas e agrava o quadro clínico dos pacientes.Essa sindemia relaciona-se a maiores
taxas de recidivas e de mortalidade entre coinfectados, agravadas pelos desafios no diagnóstico
e no tratamento adequados, somados à escassez de políticas públicas eficazes para vigilância,
prevenção e controle vetorial em regiões vulneráveis. O estudo teve como objetivo analisar o
perfil epidemiológico de pacientes coinfectados com LV-HIV no Pará, entre 2007 e 2024. A
metodologia consistiu em análise descritiva, quantitativa e retrospectiva, utilizando dados do
Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), disponibilizados pelo DATASUS.
Entre 2007 e 2024, foram registrados 233 casos de coinfecção no estado. Os municípios com
maior prevalência foram Marabá (38 casos), Belém (27), Redenção (23) e Parauapebas (22). O
perfil predominante dos coinfectados corresponde a indivíduos do sexo masculino, pardos, com
baixa escolaridade e idade superior a 15 anos. As características observadas incluem: 71,2% do
sexo masculino; 84,2% autodeclarados pardos; escolaridade entre 1ª e 4ª série do Ensino
Fundamental completa (23,8%) ou 5ª a 8ª série incompleta; e 88,4% com mais de 15 anos. Do
ponto de vista geográfico, destacaram-se maiores índices de coinfecção em Marabá, no sudeste
paraense, e em Belém, na região norte do estado.