Este estudo analisa o movimento Vogue como fenômeno estético,
social, psicológico e político, compreendendo-o como uma forma de
conhecimento encarnado que emerge da experiência de corpos dissidentes,
especialmente de pessoas negras, latinas e LGBTQIAPN+. A partir de uma
abordagem interdisciplinar que articula filosofia, psicologia, antropologia e
estudos culturais, a pesquisa propõe que o Vogue ultrapassa os limites da arte
performática, configurando-se como prática de resistência e reconstrução
identitária. O diálogo com a estética kantiana evidencia uma ruptura com o ideal
universal e desinteressado do belo, substituído por uma estética situada e
comunitária, onde a beleza é expressão política e gesto de sobrevivência. Ao
integrar a reflexão teórica com análises de obras culturais, como Paris is Burning,
Pose e Legendary, o estudo demonstra que o Vogue se inscreve na história
como instrumento de cura simbólica, visibilidade e afirmação coletiva. Em
paralelo, o Charme brasileiro é abordado como movimento analógico de
resistência estética afro diaspórica, revelando convergências na relação entre
arte, afeto e identidade. A partir da psicologia comunitária e das referências
técnicas do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e o Centro de Referência
Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP), compreende-se que os
ballrooms funcionam como microespaços de cuidado, nos quais as houses
operam como famílias escolhidas e instâncias de acolhimento psicossocial. O
trabalho identifica quatro núcleos de sentidos centrais, autoexpressão,
resistência, coletividade e estética política, que sustentam o Vogue como prática
de emancipação e produção de subjetividade. Conclui-se que tanto o Vogue
quanto o Charme exemplificam uma estética de resistência, na qual o corpo é
território de conhecimento, cura e transformação social. Em síntese, o estudo
reafirma que a arte, quando enraizada na experiência vivida, é também ética e
política: um ato de existir que transforma o trauma em beleza e o invisível em
presença.